Terça-feira, 27 de Abril de 2010

Conto II

Era uma vez dois monges zen que passeavam pelo bosque de regresso ao mosteiro. Quando chegaram ao rio , viram uma mulher a chorar, de cócaras, na margem. Era jovem e muito bonita.

- Que aconteceu? - perguntou o mais velho.

- Tenho a minha mãe a morrer. Está sozinha em casa do outro lado do rio, e eu não consigo atravessá-lo. Tentei  mas a corrente arrasta-me e não consigo chegar ao outro lado sem ajuda.... Pensei que nunca mais a ia ver. Mas agora... agora os senhores apareceram, um dos dois podia ajudar-me a atravessar o caudal.

- Oxalá pudessemos - lamentou-se o mais jovem. - Mas a única maneira de te ajudar seria carregando-te ás costas e os nossos votos de castidade impedem-nos de tocar numa pessoa do sexo oposto. É proibido... Lamento muito.

- Eu também - disse a rapariga. E continuou a chorar.

O monge mais velho agachou-se, baixou a cabeça e disse:

- Sobe

A mulher nem queria acreditar, mas apressou-se a pegar na trouxa e a subir ppara as costas do monge.

Com muita dificuldade, o monge atravessou o rio, seguido pela jovem.

Ao chegar ao outro lado, a rapariga desceu e aproximou-se do monge mais velho, com a intenção de lhe beijar as mãos.

- Está bem, está bem - disse o velho, retirando as mãos -, segue o teu caminho.

A rapariga inclinou-se com gratidão e humildade, pegou na sua trouxa e correu até á aldeia.

Os monges, sem dizer palavra, retomaram a sua caminhada até ao mosteiro. Ainda lhes faltava dez horas de caminho...

Pouco antes de chegarem, o jovem disse ao mais velho:

- Mestre, conheces melhor do que eu o nosso voto de castidade. No entanto, carredaste nos teus ombros aquela mulher de um lado para ou outro do rio.

- Levei-a de um lado para o outro do rio, é verdade. Mas o que se passa contigo que ainda a carregas como um fardo?

 

Retirado de: Deixa-me que te conte - Jorge Bucay

 

 

 

Durante toda a nossa vida somos obrigados pela força das circunstancias ou por decisão propria a agir como não gostariamos. Ficando muitas vezes com remorços e com um peso no coração. E por vezes carregamos esse peso durante anos a fio. O que esta história tenta mostrar é que as coisas más da nossa vida não precisam de viajar no nosso coração mais do que o necessário. Lá elas não não são necessárias e temos de aprender a perdoar-nos  a nós proprios.

 

sinto-me: pensativo
música: Silencio
tags: ,

publicado por FilipeP às 23:47
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11 comentários:
De Caminhando... a 29 de Abril de 2010 às 21:39
Olá!

Mais um belissimo conto este!
Esse livro deve ser mesmo interessante.

Um grande beiijnho para ti amigo Filipe


De FilipeP a 30 de Abril de 2010 às 11:51
Olá :)

O livro é realmente muito bom. E eu gosto particularmente destas histórias que nos fazem reflectir sobre a vida.

Beijinho para ti amiguita.


De Just Moments a 1 de Maio de 2010 às 17:29
http://www.youtube.com/watch?v=qVC5rJApn3Y

Gostei da parte de nos perdoar a nós mesmos:))

Beijinhos..


De FilipeP a 2 de Maio de 2010 às 12:35
Olá amiguita :)

Já vi o video e gostei bastante. Acho que tem uma mensagem muito boa.

Beijocas


De verdesperanca a 1 de Maio de 2010 às 22:39
Gostei muito do texto e da mensagem pois a mim toca-me pessoalmente. Sempre tentei fazer o que os outros esperavam de mim e muitas vezes contra a minha vontade. Só porque tinha de ser e não porque eu queria. E sim, houve coisas que me ficaram anos e anos a remoer no coração e pesaram muito e o pior de tudo era isso, não conseguir perdoar-me a mim própria por erros que eu nem sei bem se cometi.
Hoje as coisas são diferentes, eu estou diferente. Tenho aprendido bastante e tu és uma das pessoas que me tem ajudado a evoluir espiritualmente.
Abres-me a mente, tens outras perspectivas.
Beijinhos doces.


De FilipeP a 2 de Maio de 2010 às 12:44

Pois é amiguita Isso que tu sentes e que se passou ctg é algo com que muitas pessoas se podem identificar. Todos nós temos os nossos erros no passado, e todos nós sofremos com eles. Mas parece-me que temos de ser nós a nos perdoar-mos. Acho que passa por compreender porque é que as coisas acontecem e a sua importancia para a pessoa que somos hoje.
Deixar o passado para trás e começar a viver o presente.

Fico feliz por contribuir para essa tua abertura e evolução espiritual.

Beijinho


De Existe um Olhar a 2 de Maio de 2010 às 15:51
Olá Filipe
Este texto faz-me pensar nos padrões de comportamentos que nos foram incutidos e que não deixam espaço para a liberdade e para sermos verdadeiramente conscientes do nosso eu, previgiliando o "ego".
Carregamos fardos e a nossa vida deixa de fluir de acordo com o que verdadeiramente sentimos.
Vivemos agarrados a preconceitos e ao "parece mal" ou "parece bem".
Uma boa leitura que nos deixa a reflectir.

Beijos
Manu


De FilipeP a 2 de Maio de 2010 às 19:17
Olá Manu

É uma verdade essa tua constatação. E eu pergunto, qual a necessidade de nos constrangirem a vida dessa maneira e de condicionarem a liberdade de sermos quem na realidade deveria-mos ser?
Em certo ponto da nossa existência incutem-nos que aquilo que os outros pensam de nós é na realidade mais importante que aquilo que nós sentimos que é o correcto. E nós deixamos-nos controlar por esses ensinamentos tomando-os como verdades relativas durante parte da vida, até ao ponto em que para nós essa é a verdade absoluta.

Acho que é necessário uma nova perspectiva daquilo que é a vida e a razão de nós cá estarmos a vivê-la.

Beijinho :)


De espaço da raquel a 6 de Maio de 2010 às 23:08

fiquei pensativa.


De FilipeP a 7 de Maio de 2010 às 00:02

Ainda bem, porque estes textos servem mesmo para isso.


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